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O tempo não para?

  • Foto do escritor: Aline Castanhari
    Aline Castanhari
  • 23 de mai.
  • 2 min de leitura

- Sobre sincronicidade, pastor alemão e luto


Na primeira semana após o falecimento de minha avó-mãe, uma névoa me envolveu. Por mais que eu tentasse cumprir as minhas responsabilidades, dizendo-me que o tempo não para (e quem move esse tempo?), algo havia entrado em câmera lenta. O pensamento, o movimento, a dificuldade de fazer o jantar que sempre fiz em um piscar de olhos. A casa que foi acumulando coisas que caíam e se esparravam, de dentro para fora. A minha menstruação que desce religiosamente na lua nova, não veio. O trabalho de conclusão de bacharelado também não veio. Contra todas as normas, o relógio quebrou.


Nas minhas saídas diárias para trabalhar em um café na frente da praia, pego-me pensando em como é louco esse lance de sincronicidade. Recentemente, comecei a planejar uma casinha em um lugar tranquilo, com um quintal grande e verde, onde eu possa ter um cachorro e dois gatos. Comecei a pensar que seria bem legal ter um pastor alemão. Gosto de cachorro grande e tal. Até esse momento, eu achava que essa raça mal existia aqui no Reino Unido porque eu “nunca a tinha visto”. De repente, comecei a ver pastor alemão em todo canto. Sem exagero, parece que todo dia cruzo com um. Dá muita reflexão isso, não? Será que a minha realidade se constitui daquilo que reparo e/ou ignoro? Ou será que minha vontade de ver me faz enxergar?


Há meses, decidi passar algum tempo no Brasil nas férias de verão daqui, após concluir a graduação. Com as poucas pessoas com quem compartilhei tal planejamento, ouvi que isso não soava sensato “nesse momento”. Direcionamento de vida. Mestrado. Emprego. Aluguel que não vai se pagar sozinho. “O tempo não para!”. "Você sempre metendo os pés pelas mãos!" É curioso como a sociedade parece ter certa ânsia de ver nossos corpos mansos e adestrados, seguindo uma linha reta de produção servil. Essa viagem, curiosamente, planejada há meses, coincidiu com o período de luto familiar.


O tempo não para. De qualquer forma, ele continua. Eu deveria estar editando música, mas estou aqui escrevendo esse texto. Deveria estar vestindo camisa branca e atendendo a entrevistas de emprego, mas estou de coturno e barro nas panturrilhas, fazendo trilha no sul de Florianópolis com a minha irmã. Deveria estar produzindo, mas choro compulsivamente no chão da cozinha. Entre o que quero, o que consigo, o que posso e o que me proponho; véus dançam ao vento. O tempo -sempre- continua. De qualquer forma, de todas as formas.



 
 
 

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