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O que faço comigo, Maria?

  • Foto do escritor: Aline Castanhari
    Aline Castanhari
  • 29 de abr.
  • 2 min de leitura

- Sobre entrar no Meio da Vida


Em agosto, completo 38 anos. Aproximando-me bem da casa dos 40.  Essas idades que alteram o primeiro dígito botam a gente para pensar muito, não? Ou a sociedade o faz. Quando eu tinha 8 anos, falavam-me que logo mais iria me tornar “mocinha”. Já eu, que não era muito fã dessa vida, entristecia-me muito com a profecia de que passaria mais tempo nesse lugar tão complicado chamado Terra. Aos 18, falavam-me que logo mais iria me tornar adulta. Nessa época, já tinha entendido que crescer pode ser superlegal e libertador. E queria mesmo transpassar àquela juventude limitadora. Aos 28 anos, falavam-me que, por fim, precisava encontrar-me e encaixar-me. Carreira, casa própria, casamento, filhos, investimentos em renda fixa, por favor! Naquela época, eu ainda bambaleava entre o que me diziam e o que eu achava que deveria me dizer. Bem, o retorno de Saturno vem com tudo. Aos 38 anos, falam-me que a “idade da razão” se aproximava. O Meio da Vida. Penso que aquela menina que rezava para desencarnar antes dos dez anos acharia, no mínimo, curiosa tal concepção. Meio da vida? Então tem mais tudo isso de novo?! Meu Deus.


Acho que a melhor parte de envelhecer é que a gente precisa se adaptar ao que somos. Ou aceitar. Chega um ponto em que não dá mais para fugir, seguir mapas, engolir doutrinas. E veja só, não foi má vontade. Tentamos tanto! Apenas não dá mais para interpretar. Há uma certa urgência de libertação interna nessa tal idade da razão sartriana. Antes, a fuga era para fora; agora, é para dentro.


Sempre fui uma entusiasta do processo de envelhecer. Talvez por ter vindo de uma juventude muito difícil. Ou talvez por enxergar uma possibilidade irrefutável de lapidação ao longo dos anos. Uma alquimia que precisa do tempo para transmutar-se. Eu, que sempre me achei à frente do meu tempo, precisei aprender sobre as limitações biológicas do meu viver. Há certas coisas que não se adiantam. Como fruto que não amadurece antes da hora. Esse meio-de-vida me traz essa sensação morna de estar alcançando um ponto que outrora não poderia ser alcançado.


Encarar a Aline de 28 anos é como assistir a alguém como telespectadora. Entre risadas, gritinhos de: Ah não, você não fez isso! Alguém interna essa guria! (tapa na cara), lágrimas de emoção e palmas de admiração. Será que a minha persona de 48 anos isso o fará? Quem sabe.



Você deu tudo para ser livre. Abandone a própria liberdade e terá tudo de volta” – Sartre




 
 
 

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