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Como Valsar sem um Par?

  • Foto do escritor: Aline Castanhari
    Aline Castanhari
  • 8 de mai.
  • 2 min de leitura

- Sobre as desventuras do amor romântico


Há uma espécie de missão existencial e biológica no processo de “encontrar alguém”. O dito amor romântico é, entre tantas coisas, um dever. Precisamos de um par. Somos condicionados a precisar.


Dos 16 aos 36 anos, eu me mantive em relacionamentos. Sem grandes pausas. Olhando para trás, parece que sempre havia uma figura com quem pairar. Se não havia, haveria de haver. Alguém, eu precisava eleger. O importante era ocupar aquele espaço. Ou talvez o importante mesmo fosse ser vista, escolhida, desejada. Sentir-me amada. Por alguém.


O psicanalista Jacques Lacan possui uma visão poética/desastrosa sobre o processo de se apaixonar. Para Lacan, o amor romântico se baseia em “oferecer algo que não se tem a alguém que não precisa”. Um entrelaço complexo de desejos que partem de faltas e de atracões que partem de projeções. Não vemos o outro como ele é, mas como gostaríamos que ele (nos) fosse. Segundo Lacan, o processo do amor romântico inicia-se por meio de uma teia de aleatoriedade no mundo simbólico do indivíduo. Um ligar-de-pontos. Ah, você gosta de Bob Dylan! Ah, você é canceriano! Que fofo. A minha lua é em Câncer! E assim vai. Através dessas coincidências seletivas, traçamos um enredo conveniente ou suficiente. A paixão é muito mais imaginação do que contemplação. Talvez por isso, tão fugaz e inefável como ar que se tenta capturar com as mãos.


Há cerca de um ano, decidi “pausar” a minha vida amorosa. Soa bem estranho assim dizer, mas é bem estranho mesmo. Isso nunca ocorreu. Essa decisão decorreu de uma compreensão aguda do meu processo de emenda/dependência passional. Vendo-me sempre em pares, acabei por confundir a minha singularidade. Ficou muito difícil saber quem eu era sem alguém me dizendo quem eu precisava ser. Ficou muito difícil saber como eu operava e, assim, com quem eu funcionava.


Não defendo que sejamos lobos solitários, ermitões das montanhas ou monges tibetanos. Mas há uma certa cura que precisa de solitude para ser canalizada. Confesso que não foi fácil interromper o ciclo de uma vida e dizer: preciso ficar sozinha; preciso me conhecer sozinha. Era como se a minha mente clamasse por um par para criar roteiro digno dos grandes palcos. Confesso que precisei passar por situações traumáticas para tomar as rédeas e mudar o rumo. Esse processo acabou sendo um empoderamento acima de tudo; um exercício de confiar em mim, de gostar de mim, a ponto de querer subir no tablado a sós. Nessa valsa, eu me escolho.



Peço que recuses o que tenho a oferecer / Pois não é isso.” – Lacan  



 
 
 

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